sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pátria Minha (Vinícius de Moraes)

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes." (e eu também, Bruno B.)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Filmes irmãos

Filmes irmãos:

Disque "M" para Matar (Dial "M" for Murder - Hitchcock, 1954) e Match Point (Woody Allen, 2005);

Goodbye, Till Tomorrow (Do widzenia, do jutra - Morgenstern, 1960) e La Dolce Vita (Fellini, 1960)

domingo, 11 de abril de 2010

Confissão do Cabo Julio

A maioria já deve ter visto a noticia pelo Estado de Minas, mas vale a pena acessar a confissão pra ver a discussão que gerou no blog. Eu também deixei um comentário, ta la no blog dele pra quem se interessar.

BLOG OFICIAL DO CABO JÚLIO: "EU PENSEI QUE FOSSE MORRER DE TANTA DOR"

sexta-feira, 9 de abril de 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Forró agringolado

Os gringos se curvam à melhor cultura do mundo... e Luiz Gonzaga rola na cova!

(clica pra ver o vídeo)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Virada Chinesa

Em 2004 fui estudar na Alemanha e, já naquela época, me impressionou o número de chineses na universidade. Agora, vivendo outra vez em um campus europeu, tenho a sensação que não apenas a quantidade de estudantes chineses aumentou exponencialmente, mas que uma mudança qualitativa ocorreu na presença deles por aqui.

O que eu observei nos chineses na Alemanha é que eram estudantes muito retraídos, pouco participativos nas aulas e pouco sociáveis com os locais e demais estrangeiros. Estas ainda são características comuns entre os chineses que vejo hoje aqui na Inglaterra; no entanto, essa discrição parece que está deixando de ser absoluta. Já não é tão raro ouvir comentários (muitas vezes polêmicos) de estudantes chineses nos seminários, ou vê-los interagindo com os colegas fora das aulas. Percebe-se facilmente como o aumento da riqueza e poder da China se reflete no comportamento de seus estudantes vivendo no exterior. Antes parecia que vinham apenas absorver de forma pragmática os benefícios da formação acadêmica na Europa e adotavam uma postura muito discreta, mesmo temerosa e submissa. Agora, continuam pragmáticos, mas parecem mais confiantes, orgulhosos de sua origem e cultura, e até mesmo se começa a notar em alguns, para além do pragmatismo, um certo prazer em desfrutar a experiência na Europa.

Eu tenho uma vizinha de Xangai no meu dormitório, por exemplo, que promove banquetes quase que diariamente. Juntam-se os amigos, preparam comidas tradicionais, comem de pauzinho, mas desperdiçam comida como legítimos ocidentais.

Outro caso muito interessante ilustra a maneira como esses chineses pensam e que agora começam a expressar. Aconteceu em um dos seminários semanais que tenho aqui no curso. Eu cheguei mais cedo e pude ouvir a discussão de uma colega filipina com uma chinesa sobre o trabalho em dupla que iriam apresentar sobre modelos de desenvolvimento. A filipina havia notado que a chinesa tinha suprimido um tópico da apresentação, “liderança”. Então questionou a colega pela falta, que respondeu: “eu tirei ‘liderança’ porque já havia outro tópico ‘burocracia’ e ‘liderança’ e ‘burocracia’ são praticamente a mesma coisa, praticamente sinônimos”. Certo ou errado, é o pensamento da nova hegemonia e, bem ou mal, com o qual o mundo vai ter que lidar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"O fedor de Westminster continua"

No ano passado, uma coincidência interessante aconteceu. Apenas um mês após o escândalo das passagens aéreas no Congresso Nacional, os parlamentares da Câmara dos Comuns, aqui no Reino Unido, também foram flagrados pela imprensa local abusando das verbas indenizatórias. Teve parlamentar que foi indenizado em £2,250 (aprox. R$ 6.750) por um banquinho de sala de estar (que deve ter sido comprado na mesma loja em que o reitor da UNB adquire latas de lixo). Teve outro que recebeu uma indenização de £5,000 (R$ 15.000) por despesas com limpeza. Ele é conhecido agora como “Mr Clean”. Enfim, são vários os casos pois mais da metade dos 646 MPs (Members of Parliament, como são chamados aqui) foram flagrados na lambança. Quase igual ao caso brasileiro. Quase...

Mais importante que perceber as semelhanças entre o tipo de gente que se infiltra nos dois parlamentos é refletir sobre as diferenças nas reações das duas sociedades. Um mês após a revelação dos gastos pela imprensa, o equivalente local ao Presidente da Câmara (Speaker of the House of Commons ) caiu. Caiu e deixou a vida pública - é importante dizer. Os 364 MPs envolvidos no escândalo foram obrigados a devolver um total de £1,120,000 (R$ 3.360.000). Teve parlamentar que pagou mais do que foi cobrado, impondo-se multas voluntárias. Foi criada uma comissão independente para fiscalizar permanentemente todos os gastos de Westminster (tanto a Câmara dos Comuns como a dos Lordes). Esta comissão não só deverá fiscalizar, mas deverá estabelecer os valores dos salários e demais penduricalhos dos parlamentares. Ou seja, o probleminha óbvio de se votar em benefício próprio foi aqui tratado com seriedade. Hoje, o jornal The Times publicou que a Promotoria da Coroa deve anunciar a acusação criminal contra vários MPs, baseada em investigação da Scotland Yard sobre o caso. E, por fim, a expectativa é que na próxima eleição haverá a maior renovação de representantes na história desse parlamento (o mais antigo do mundo). Pois é, aqui o presidente da Casa caiu e se recolheu humilhado da vida pública, o dinheiro furtado foi restituído, houve uma imediata reforma institucional (séria), a Justiça se moveu e está acusando criminalmente os pilantras e o que se espera é que o eleitorado vá fazer a sua parte. Quase igual ao Brasil!

E, com tudo isso, os ingleses não estão satisfeitos. No mesmo jornal de hoje um comentarista escreveu em sua coluna que “O fedor de Westminster continua”. Imagina o que esse sujeito não diria se sentisse a maré do Planalto Central...