sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Rei está morto, viva o Rei

Em réplica ao belo post da mãe solteira casada, Marina Miranda Fiuza, uma das mais bonitas cenas da literatura:


The sight of his brother, and the nearness of death, revived in Levin that sense of horror in face of the insoluble enigma, together with the nearness and inevitability of death, that had come upon him that autumn evening when his brother had come to him. This feeling was now even stronger than before; even less than before did he feel capable of apprehending the meaning of death, and its inevitability rose up before him more terrible than ever. But now, thanks to his wife's presence, that feeling did not reduce him to despair. In spite of death, he felt the need of life and love. He felt that love saved him from despair, and that this love, under the menace of despair, had become still stronger and purer. The one mystery of death, still unsolved, had scarcely passed before his eyes, when another mystery had arisen, as insoluble, urging him to love and to life.

The doctor confirmed his suppositions in regard to Kitty. Her indisposition was a symptom that she was with child.

(Ana Kariênina, Leão Tolstoi)


(Kitty e Levin, ?)




segunda-feira, 16 de julho de 2012

Desvarios coloniais

Vendo uma foto antiga que tirei de Ouro Preto, me lembrei de Lisboa. Lembrei também da Isabel Martins, da Yara Gutkin, do Kent Queener, do Carlos Barreiros, do Luís Guilherme Melo e escrevi este post:


O primeiro que vi de Lisboa quando a vi pela primeira vez foram suas telhas vermelhas. Desde aí me senti em casa. Quando aterrizado saí para conhecer suas ruas e comer seus bacalhaus (assim mesmo no plural), o que vi foi Ouro Preto. Lisboa, logo vi, era uma Ouro Preto metropolitana, tal qual. Estava tudo ali, só que em dimensões metropolitanas.

Os portugueses claro que dirão que me equivoquei no sentido: Ouro Preto é que é igual a Lisboa. Não sei. Ouro Preto é de 1711 (e antes Vila Rica de 1652), Lisboa se reconstruiu depois de 1755. Nesse momento a cidade do ouro estava no seu auge e rivalizava com a capital imperial não só em tamanho, mas também em criatividade e produção artística. Não era só o ouro que atravessava o Atlântico, também a arte colonial ancorava no Tejo. Algo mulato chegou ao traçado pombalino.

De todos modos, Pombal não entendeu bem o que veio dizer o Terremoto e quis, com suas pretensões iluministas, meter-lhe retas castas a Lisboa. Pobre Pombal. Lisboa, como boa amante, resistiu e continuou despedindo-se do Tejo com seus abraços aconchegantes.

Que bom, a cidade não cedeu à lógica dos vizinhos, com seus tabuleiros de xadrez crescendo ao entorno de suas Plazas Reales, de Armas, de Toros... Que monotonia fazer de Lisboa uma Quito, Buenos Aires, ou Assunção. Lisboa nasceu com vocação para Ouro Preto (com esta já escuto um “foda-se” muito bem conjugado em português arcaico).

O semeador prevaleceu sobre o ladrilhador - como no fundo queria Sérgio Buarque – e Lisboa à revelia do iluminista preservou algum respeito à topografia. Feita ruínas, se reergueu no pragmatismo do déspota esclarecido, para ser aceita por Paris, Madri, Berlim, Viena e a credora Londres. Mas não entregou todos seus mistérios e sua beleza Manuelina – afinal, a estética é alicerce no tempo. A semeadura Manuelina ainda se constata em cada canto que falhou em ser canto, pois é, como cantou Sophia: “Não a nave romântica onde a regra / Da semente sobe da terra / Nem o fuste de espiga / Da coluna grega / Mas a flor dos acasos que a errância / Em sua deriva agrega”.

Meu avô, que nunca fez a travessia do Atlântico senão pela literatura, escreveu certa vez sobre outra cidade imperial. Comparou a capital da Pérfida Albion com a capital da Mantiqueira. Em seu poema, constatou que Ouro Fino era menor que Londres, mas que, em seus junhos frios, o fog tomava de tal conta a cidade que o big-benzinho da Matriz de São Francisco de Paula transparecia como uma lua de Alphonsus. Assim como em Ouro Fino, a neblina costuma cobrir Ouro Preto nas manhãs de junho. Em uma destas, um se perde em suas ruelas, chega à Praça e toma Tiradentes por Pombal.


O Mártir ou o Marquês?

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A velhice e a juventude, segundo Nelson e Otto

Encontrei isto vagabundeando pelo youtube e guardei aqui nesta grande gaveta de miscelâneas - que descobri é a melhor definição para este meu blog de tão pouca tinta própria - para Madu, Jorge, Pedrim e Prós:


Otto: "Você se preparou para ser velho, não?"
(...)
Nelson: "Há uma convivência entre mim e minha velhice formidável."
(...)
Nelson: "Eu acho que o jovem só pode ser levado a sério quando fica velho."
(...)
Otto: "Todas as fases da vida podem ser fecundas, e todas podem ser criativas. No que o homem é criador e fecundo, ele é jovem, independente da idade que tenha."
(...)
Otto: "Você me permite ofender a sua modéstia? Você começou a trabalhar com 13 anos, oh Nelson. Você era um idiota? Te acolheram no jornal por idiota?"
(...)
Nelson: "Aos 18 anos o sujeito não sabe como se diz a uma mulher 'boa noite'. Eu era de uma ignorância enciclopédica."
(...)
Otto: "Nós estamos em uma conversa e não em uma competição e longe de mim pretender te dar uma chave de rim ou ganhar discussão, pois da discussão não nasce a luz, só nascem os perdigotos."



sexta-feira, 8 de junho de 2012

Um desabafo depois de outra tragédia


O Dnit tem, em todo o país, 126 porteiros e 10 técnicos de estradas, 131 datilógrafos(!!) e 8 tecnologistas, 94 motoristas e 7 auditores (com um orçamento de R$ 15 bilhões!). Nos últimos escândalos do órgão as cifras da corrupção chegavam à casa dos bilhões. Minas Gerais é o estado que mais mata gente nas estradas do Brasil - e seguramente as estatísticas mineiras estão entre as mais mortais do mundo. Em Minas Gerais morrem mais de 1300 pessoas por ano nas estradas, chegam a morrer 40 em um fim de semana. O DER/MG foi a mina de ouro do Newton Cardoso e sua quadrilha por décadas. Então, quando um amigo hoje perguntou até quando isso seguiria, eu só pude pensar na capacidade da nossa gente de aceitar o absurdo evidente. Isso vai durar até quando o povo for passivo diante desses ladrões que fazem milhões a custa de sangue inocente, muito sangue.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Stallone no Vaticano

Estudante estadunidense Anthony Zonfrell encontra Sylvester Stallone em afresco do pintor renascentista Rafael:

Rambo disfarçado de coroinha do Papa Gregório IX